Para o meu pontinho cinza

baby

Enquanto todos estavam reclamando do preço das batatas, da falta de combustível e gritando para o presidente sair. Eu estava aqui. Entrando para a triste estatísticas das mães que sofrem de perda gestacional. Enquanto as pessoas, faziam filas para abastecer seus carros a preços abusivos. Eu estava em uma sala de ultrassom, torcendo para o médico ter errado e o coraçãozinho do meu bebe voltar a bater. E quando a greve acabou eu estava em um quarto de hospital esperando o momento de retirarem ele de dentro de mim.
Demorou para cair a ficha e ainda continua estranho. Aquela sensação de estranheza que a morte sempre nos traz…
Essas coisas parecem que só acontecem com a amiga da vizinha e nunca com a gente. Imaginem só, logo comigo, mãe de segunda viagem, com um histórico de gravidez e parto tranquilos!
Mas tem coisas que não dependem só da gente. O que me conforta é saber que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para que essa gravidez fosse a diante. Mas não foi. Não deu. E, por mais que a gente busque culpados nessas situações, não existem culpados. Não foi nervoso, não foi por esforço demais, não foi castigo divino, nem nada disso. Simplesmente não era pra ser, não dessa vez.
Esse sempre vai ser o filho que eu não tive, o choro que eu não ouvi, o semblante que eu não conheci e a risada que nunca vou saber como é. Nunca vou ouvir ele me chamar de mãe, ou dar os primeiros passos, nem espalhar brinquedos pela casa…
Dizem que os anjos não tem sexo, acho que é por isso que eu nunca vou saber qual era o dele.
E, agora dói muito, mas sei que essa dor vai ser amenizada. Já estou me conformando que agora também sou a mãe de um anjo. E, não tenho raiva de Deus, ou me sinto injustiçada. Me acho abençoada por ter carregado por dois meses um anjo dentro de mim. 👼 .

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