{ No ponto de ônibus} A menina da flor

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Google Imagens

Era uma tarde de dezembro.

Embora o verão ainda não tivesse nem perto de chegar, o tempo estava muito quente. Tão quente, que as pessoas improvisavam usando panfletos de supermercados como se fossem leques, sacudindo-os , de um lado para o outro, sentindo o vento bater em seus rostos.

Cheguei cedo. O meu ônibus ainda demoraria uns quarenta minutos para chegar.

Abri um livro e comecei a ler para passar o tempo.

Até que sou interrompida por uma criança, era uma menina de aproximadamente 5 anos. Ela tinha nas mãos uma linda flor vermelha, dessas que a gente encontra em quintais de avós, sabe?

Era uma linda menina negra, dos olhos de jabuticabas, e cabelo enroladinho. E estava com as mãozinhas esticadas entregando para mim. Eu sorri e perguntei:

— É para mim?

Ela sacudindo seu pequeno corpo de um lado para o outro, assentiu que sim com a cabeça e sorriu para mim. Um sorriso tão bonito que era impossível olhar e não sorrir de volta. Que menina encantadora!

Depois disso, ela saiu correndo e eu a vi com sua família: uma mulher, um homem e, com ela, somavam quatro crianças. Eles pareciam felizes.

Até que de repente o homem coloca a mão no peito, caminha alguns passos e cai no chão frio da rodoviária.

As pessoas começam a aglomerar em volta dele. Ouço um homem dizendo que ele já estava ficando roxo. Outro está com o celular na mão, xingando as pessoas do hospital que não atendiam o telefone. Eu fui vagarosamente me aproximando, quando me assustou com o grito:

— Morreu! Ele morreu!

O choro da mulher e das crianças foi abafado pelo som estridente da ambulância que se aproximava.

A família entrou na ambulância junto com o pai da família. A multidão começou a se dispersar.

Meu ônibus chegou. Eu fui entrando aos poucos no ônibus. Entrei e sentei em um banco que dava para a janela.

Em um dos bancos da rodoviária restaram algumas  flores vermelhas iguais aquela que a menina havia me dado. As flores da menina, a menina das flores.

Texto para a menina do All Star

 

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Faby Green

Hey, você! É você mesmo, minha linda! É você que usa todos os dias um rabo de cavalo baixo para ir à escola, que não usa batom como as meninas da sua idade, que ama roupas pretas e All Star.

É você que não é considerada a “mais linda da escola” e nem anda com as populares.

É você que sofre as provocações de alunos e professores (sim, por incrível que pareça alguns professores, infelizmente, incentivam o bullying).

É você que decidiu que a sua melhor companhia é você mesma.

Você que é magra de mais, gorda de mais, baixa de mais ou muito alta.

Você que tem dificuldade em matemática ou em português, que já ouviu falarem que você é burra, ignorante e que não sabe de nada.

Ou então que é a CDF, a certinha, a perfeitinha.

É sim, estou falando com você que senta na penúltima carteira da fila do canto esquerdo. Que entra e sai calada. Que escreve os poemas nas últimas folhas do caderno enquanto a professora explica a matéria.

Você que sonha com o príncipe encantado, mas sabe que eles preferem aquelas princesas que são bem diferentes dos contos de fadas : lindas por fora e horríveis por dentro.

Você que não tem dinheiro para comprar uma roupa da moda e usa as roupas que sua irmã mais velha usava nos anos 90.

Você que sabe que os mocinhos dos filmes e das novelas, às vezes, são insuportáveis na vida real.

Você que quer ir embora, que já cansou de ver os mesmos rostos todos os dias…

Estou falando com você que só quer ser invisível, mas eles fazem questão de te expor, de te humilhar, de mostrar como eles são superiores.

Muitas vezes, você chega em casa e chora porque eles riram do seu cabelo, do seu corpo, do seu jeito de andar e falar, eles riram de quem você é.

É, minha linda, o diferente assusta, incomoda. Mas ser diferente não é uma coisa ruim, acredite em mim.

Você ainda vai ser incomodada muitas vezes por não querer ser como a maioria. Mas um dia você vai notar que quem tinha que se incomodar de ser tão igual são eles.

Nossas impressões digitais estão aí para comprovar que cada ser na terra é único!

Todos os seus defeitos e manias esquisitas te tornam única. E você nem precisa que ninguém lhe dê importância para isso. Você só precisa abrir os olhos: veja quem você é. Olhe a sua imagem refletida no espelho, você é linda, você é especial e única no mundo inteiro.

E mude. Mude se achar necessário. Mas nunca deixe que se perca essa essência única que há em você.